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Método

IA para estudar para concurso: o estudo que mostrou quando ela ajuda e quando atrapalha

Usar ChatGPT ou Gemini para estudar para a Polícia Civil ajuda ou atrapalha? Um estudo com quase mil alunos mostrou as duas coisas. Veja o jeito certo.

Geovane Klipel, Delegado de Polícia Civil
Publicado em 08/11/2026

Você travou numa questão de Direito Penal, abriu o ChatGPT, colou o enunciado e em dez segundos veio a resposta certa, explicada, bonita. Você leu, achou lógico e foi para a próxima. Uma semana depois cai uma questão parecida no simulado e você erra de novo. A inteligência artificial não errou. Quem pulou uma etapa foi você.

Eu uso IA no meu dia a dia e recomendo aos meus alunos. Mas existe um jeito de usar que faz a nota subir e outro que faz você estudar pior do que se nunca tivesse aberto a ferramenta. E isso não é opinião minha: foi medido.

O estudo com quase mil alunos

Em 2025, um grupo de pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, liderado por Hamsa Bastani, publicou na revista científica PNAS um experimento feito com cerca de mil estudantes de ensino médio na Turquia, em aulas de matemática.

Eles dividiram os alunos em três grupos durante as sessões de exercício:

  • um grupo estudou do jeito normal, sem IA;
  • outro grupo teve acesso a uma IA comum, no estilo do ChatGPT, que respondia o que o aluno pedisse;
  • o terceiro grupo teve uma IA “tutora”, programada para não entregar a resposta pronta. Ela dava dicas, apontava onde o aluno errou e fazia perguntas até ele chegar lá sozinho.

Durante os exercícios, os dois grupos com IA foram muito melhor que o grupo sem IA. O grupo da IA comum acertou 48% a mais. O da IA tutora, 127% a mais.

O dado que importa veio depois. Os pesquisadores tiraram a IA e aplicaram uma prova normal, cada um sozinho. O grupo que usou a IA comum foi 17% pior do que o grupo que nunca usou IA. O grupo da IA tutora ficou empatado com quem estudou sem IA: não perdeu nada.

Os autores olharam as conversas e entenderam o motivo: com a IA comum, a maioria dos alunos simplesmente pedia a resposta e copiava. Usaram a ferramenta como muleta. Na hora da prova, sem muleta, não sabiam andar.

O que esse resultado quer dizer para quem estuda para concurso

Ele confirma uma regra que vale para todo estudo, com ou sem tecnologia: você aprende o que você faz, não o que você lê. Quando a IA resolve por você, quem treinou foi a IA. A sensação de que “agora entendi” é a mesma de assistir a uma boa videoaula: real na hora, fraca uma semana depois.

E o estudo mostra o outro lado: a mesma tecnologia, configurada para fazer você pensar, não atrapalhou. A diferença entre os dois grupos não foi a ferramenta. Foi o comando que ela recebeu.

Um detalhe honesto: foi um estudo com adolescentes, em matemática, em uma escola. Não dá para transformar em lei universal. Mas o mecanismo, a resposta pronta tirando de você o esforço que faz a memória, é o mesmo que a pesquisa sobre aprendizagem descreve há décadas.

Como usar a IA sem cair na armadilha

Cinco ajustes simples, que eu passo para os alunos:

  1. Tente antes de perguntar. Resolva a questão sozinho, marque sua resposta e só depois abra a IA. Errar primeiro e corrigir depois é o que fixa.

  2. Transforme a IA em tutora com um comando. Cole isto no começo da conversa: “Quero que você seja meu tutor para concurso de Polícia Civil. Não me dê a resposta pronta. Quando eu errar, me dê uma dica e me faça uma pergunta para eu chegar sozinho na resposta. Só confirme quando eu acertar.” É, na prática, a IA tutora do estudo.

  3. Peça perguntas, não resumos. Em vez de “resuma o artigo 121”, peça “me faça 10 perguntas de Certo ou Errado sobre o artigo 121, uma por vez, e corrija cada resposta minha”. Resumo pronto é leitura; pergunta é treino.

  4. Explique para ela. Escreva com suas palavras o que entendeu de um assunto e peça: “aponte o que está errado ou incompleto na minha explicação”. Você faz o esforço, ela corrige.

  5. Confira na lei. A IA erra, e às vezes erra com muita segurança: número de artigo trocado, pena errada, súmula que não existe. Toda vez que a resposta envolver lei, prazo ou pena, abra a lei seca e confira.

Onde isso aparece na Polícia Civil

A prova de Investigador, Escrivão ou Delegado cobra o detalhe da lei: a fração de aumento da pena, o prazo do inquérito, a exceção do parágrafo. É exatamente o tipo de coisa que você “entende” lendo a explicação da IA e esquece em três dias. Quem usa a IA para responder dez perguntas por dia sobre esses detalhes, errando e sendo corrigido, chega na prova com o detalhe na cabeça. Quem usa para ler respostas prontas chega com a sensação de que já viu aquilo, e a banca é especialista em explorar essa sensação.

Perguntas rápidas

Qual IA é melhor para estudar para concurso? ChatGPT, Gemini e outras resolvem bem. O que faz diferença é o comando e o hábito de tentar antes de perguntar.

Usar IA para estudar é errado? Não. O estudo mostra que, usada como tutora, ela não prejudica. O problema é usar como gabarito.

Posso confiar no que a IA diz sobre a lei? Use como ponto de partida e confira sempre no texto oficial da lei. Ela pode inventar artigo e jurisprudência.

Eu ensino esse passo a passo, com os comandos prontos para cada etapa do estudo, no curso Estudo Tático com IA: sete aulas curtas, que servem para qualquer concurso. E se você quer alguém dizendo o que estudar, quanto revisar e cobrando você até a prova, conheça a Distintivo no Peito.

Fontes

  • Bastani, H.; Bastani, O.; Sungu, A.; Ge, H.; Kabakcı, Ö.; Mariman, R. “Generative AI without guardrails can harm learning: Evidence from high school mathematics”. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), v. 122, n. 26, e2422633122, 2025.
  • Roediger, H. L.; Karpicke, J. D. “Test-enhanced learning”. Psychological Science, 2006 (por que responder fixa mais que reler).

Fonte: Bastani e colegas (2025), PNAS

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